Regulação das redes sociais no Brasil: como proteger a liberdade de expressão e evitar abusos?

STF, Congresso, TSE e especialistas apontam desafios; o debate foi impulsionado pelo vídeo de Felca sobre “adultização” infantil nas redes.

Foto: Criação/ Portal Regional Notícias

O debate sobre a regulação das redes sociais no Brasil ganhou força em 2025 e envolve decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), projetos de lei no Congresso e, mais recentemente, a repercussão do vídeo do youtuber Felca, que denunciou a chamada “adultização” de crianças na internet.

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Em 26 de junho deste ano, o STF decidiu por oito votos a três que as plataformas digitais devem remover conteúdos considerados graves, como apologia ao nazismo, pornografia infantil, incentivo ao suicídio, ataques à democracia, racismo e violência contra mulheres, mesmo sem ordem judicial, bastando uma notificação extrajudicial. 

A decisão flexibilizou o artigo 19 do Marco Civil da Internet, aprovado em 2014, que determinava que a responsabilização só poderia ocorrer mediante ordem judicial. Para os ministros Dias Toffoli, Luiz Fux, Gilmar Mendes, Luís Roberto Barroso, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Cármen Lúcia, entre outros que votaram a favor, a medida protege a sociedade de danos irreparáveis. Já juristas críticos à decisão alertam que o novo entendimento pode estimular as plataformas a removerem conteúdos preventivamente, o que abre espaço para censura privada e ameaça à liberdade de expressão.


Foto oficial dos ministros do STF registrada durante a posse de Dino no lugar de Rosa Weber - 22/2/2024 | Foto: Antonio Augusto/SCO/STF

O tema não é novo. Em 2020, o senador Alessandro Vieira (MDB), apresentou o Projeto de Lei 2630, o chamado “PL das Fake News”, que recebeu apoio do ministro Alexandre de Moraes e do governo federal. O projeto previa regras rígidas para responsabilizar empresas de tecnologia, mas foi arquivado em abril de 2024 pelo presidente da Câmara, Arthur Lira, diante de críticas de gigantes como Google e Meta e de organizações como Human Rights Watch. A preocupação era a mesma: a falta de clareza jurídica, riscos à privacidade e possibilidade de censura.


No âmbito eleitoral, o TSE aprovou a Resolução 23.732/2024, elaborada sob a gestão de Alexandre de Moraes, estabelecendo prazos curtos para remoção de conteúdos e responsabilização das plataformas em caso de descumprimento. Para juristas e entidades, embora o objetivo seja combater a desinformação, os prazos acelerados e critérios vagos podem levar ao chamado “overblocking”, quando conteúdos legítimos acabam sendo retirados por excesso de zelo.

A repercussão sobre os limites da regulação cresceu ainda mais após o vídeo publicado em agosto pelo youtuber Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca. No material intitulado “Adultização”, ele denunciou a exposição de crianças em conteúdos de teor sexualizado e acusou o algoritmo das plataformas de incentivar esse tipo de material, conhecido popularmente como “Algoritmo P”. 

O influenciador Felipe 'Felca' Bressanim | Foto: Reprodução/YouTube

O vídeo viralizou, somando milhões de visualizações, e teve desdobramentos concretos: o influenciador Hytalo Santos foi preso em 15 de agosto pela Polícia Civil da Paraíba, após denúncias do Ministério Público; o presidente da Câmara, Hugo Motta, anunciou a análise de novos projetos de lei para coibir a exploração infantil digital; e o juiz Gláucio Ferreira, do TRF6, determinou que o YouTube exibisse aviso sobre a proibição de publicidade infantil abusiva.

Leia mais: Hytalo Santos é alvo de busca e apreensão por exploração de menores

Organizações como a Coalizão Direitos na Rede, a ARTIGO 19, o Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio), a Abraji e a Fenaj reforçam que o Brasil precisa de regras mais claras e democráticas, que não deixem margem para abusos. Segundo essas entidades, proteger crianças e combater crimes graves é necessário, mas não se pode permitir que plataformas passem a remover conteúdos críticos ou jornalísticos de interesse público apenas para se proteger juridicamente. A preocupação também atinge o campo da inovação: especialistas da FGV e da Internet Society alertam que leis pouco claras aumentam os custos para empresas e prejudicam pequenos criadores de conteúdo.

Na prática, a discussão está dividida entre dois pontos fundamentais: como garantir proteção à sociedade, especialmente a crianças e adolescentes, e ao mesmo tempo preservar a liberdade de expressão, a privacidade e o espaço democrático de debate. O caso Felca mostrou que existem falhas graves na forma como as plataformas lidam com abusos, mas especialistas lembram que soluções apressadas ou mal definidas podem gerar novos problemas.

O consenso entre organizações independentes é de que qualquer lei deve ser precisa, transparente e construída com participação social. É preciso proteger sem censurar, fiscalizar sem quebrar a privacidade dos cidadãos, e responsabilizar sem sufocar o jornalismo ou a diversidade de opiniões.


Os riscos de seguir esse caminho

A experiência internacional mostra que, quando a regulação das redes sociais é conduzida de forma apressada e sem garantias democráticas, os maiores prejudicados são a liberdade de expressão e o próprio direito à informação. Um exemplo é a Argentina, onde medidas adotadas nos últimos anos por governos de viés progressista resultaram em forte controle da mídia digital, perseguição a jornalistas independentes e intimidação de criadores de conteúdo críticos ao poder. Em países como Nicarágua e Venezuela, ambos sob governos de esquerda, as leis de combate à “desinformação” e ao “discurso de ódio” foram usadas para silenciar opositores, restringir a atuação da imprensa e até criminalizar opiniões divergentes.

“Especialistas como Ivar Hartmann (Fundação Getúlio Vargas Direito), Carlos Affonso Souza (Intituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro), além de organizações como ARTIGO 19, Human Rights Watch e a Coalizão Direitos na Rede, alertam que o Brasil corre sério risco de repetir esse modelo. Se as plataformas passarem a remover publicações por medo de multas e processos, críticas legítimas ao governo, denúncias jornalísticas e opiniões divergentes podem ser eliminadas sem chance de defesa.”

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O paralelo internacional mostra que a fronteira entre “proteger” e “censurar” é muito fina. A sociedade brasileira precisa cobrar que o debate seja conduzido com equilíbrio, para que a regulação não vire instrumento político de silenciamento, mas sim uma ferramenta para garantir segurança digital sem abrir mão da democracia.

Portal Regional Notícias, com informações do repórter Allan Emanuel.

Repórter Allan Emanuel

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